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O instinto em você

Parei em uma praça qualquer e analisei o ambiente que se ofertava à minha observação. De imediato, meus ouvidos desligaram-se do mundo e de sua poluição visual, auditiva e intelectual. Pensei por intermédio de meus instintos. A razão, na visão dos humanos, preconiza hegemonia sobre as outras espécies. Mas e quando as outras espécies, sem razão alguma, têm algo a nos ensinar?

Sentindo o vento úmido chocar-se contra minha face, consegui ouvir formigas trabalhando e as árvores fazendo fotossíntese. Ao chacoalharem no ar, as folhas se mexiam de suas posições estáticas, assumindo uma posição cinética. Logo abaixo, um passarinho caçava alimentos para seus filhotes e teve sucesso ao capturar uma desafortunada minhoca. No alto, o céu azul se manifestava timidamente entre nuvens.
Em uma situação normal, aqueles minutos de calmaria não poderiam acontecer. A dinâmica do dia a dia, atrelada a conquistas materiais e necessidade de sobrevivência em um mundo racionalmente selvagem, faz as pessoas ignorarem o lugar de onde vieram. Do meio natural nascemos, mas hoje optamos por deixá-lo em segundo plano, substituindo-o gradativamente por nossos minimundos individuais.
A pureza do instinto foi substituída pelo excesso de cognição e isso nos tornou arrogantes. Tudo é motivo de opulência e ostentação, nada mais flui intencionalmente. Enquanto isso, o passarinho continua devorando sua minhoca, sem qualquer preocupação sobre o que a comunidade pensa a respeito de seu ato. Vive com o despojo do que precisa fazer e não pelo que se vê obrigado.
Então me levantei. Tive de voltar para aquilo que critiquei ao longo das últimas palavras. Um local fechado, distante da luz natural. Essa é a história de todos os indivíduos citadinos. Quando o minuto de atenção se vai, recomeçam as horas de provação. O verde é substituído pelo cinza. Os pássaros, tão livres e belos, dão lugar a exigentes chefes. Mas amanhã é outro dia. Sempre haverá tempo e espaço para observar o espetáculo mais lindo que existe. Basta libertar seus instintos.
Por: Gabriel Bocorny Guidotti
Jornalista e escritor
Porto Alegre – RS (Brasil)