Era uma tarde agradável de inverno. Um frio ameno tomava o ar e nele liberava ventos uivantes. A cidade onde me encontrava sempre fora reconhecida pelo potencial turístico, de modo que pessoas se avolumavam na disputa pelas atrações das ruas. Carros, aos montes, lutavam para encontrar um espaço que pudesse se tornar uma vaga. O cenário está montado. Vamos àquilo que realmente desejo falar.

Nas grandes metrópoles, sou um crítico contumaz da pressa. As pessoas estão sempre correndo de lá pra cá e de cá para lá. Parecem procurar de algo. Talvez um motivo que justifique a pobreza do açodamento. Lamentavelmente, nossa espécie tornou-se vítima de um ritmo histriônico criado pelo capitalismo. Invejo, nesse sentido, os poucos que vivem nas paragens verdes dos campos. Para estes, os ponteiros do relógio correm no tempo certo – nem lentos, nem rápidos.
A pressa, diz o ditado, é inimiga da perfeição. A pressa que mata no trânsito. A pressa da ansiedade, que afronta nossa razão e nos condiciona por caminhos impensados, mal planejados. Se existe um propósito na aventura humana na Terra, eis a verdade sobre ele: o segredo de uma vida plena está nos pequenos passos que levam a grandes conquistas. Passos maiores que a perna não desembocam em destinos. Não destinos prolíferos, ao menos.
Mas voltando à cidade em que me encontrava, devo admitir que fui vítima do que critico: a pressa. Um trânsito infernal atrasava o proveito de minhas férias. Uma multidão de pedestres invadia as vias, criando caos entre os carros. Entretanto, a esperança se renova nos menores gestos. Numa faixa de segurança, uma senhora pedia passagem. A idade avançada dela traduzia-se nos cabelos brancos. De soslaio, uma surpresa aconteceu.
A senhora atravessou a rua a passos módicos – irritantemente módicos -, mas havia uma boa razão para isso. No meio do trajeto, ela parou, empertigou-se para o carro e fez algo inusitado: mandou beijinhos de agradecimento, ostentando uma face de felicidade como poucas vezes vi na vida. A pressa havia me pregado uma peça para me dar uma lição. Devolvi os beijinhos, sorrindo de orelha a orelha. Após o fato, agradeço por casa segundo “perdido”. A perfeição do momento me edificou para a vida inteira. Em outras palavras, valeu a pena esperar.

Por: Gabriel Bocorny Guidotti

Jornalista e escritor
Porto Alegre – RS (Brasil)
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