O Brasil vive uma das maiores crises de sua história. A instabilidade política potencializa a instabilidade econômica, algo que anda ceifando o emprego de milhões de concidadãos. Como sobreviver à tempestade é a questão mais discutida nas rodas intelectuais. Eu, entretanto, percebi algo que a maioria ainda não notou. A derrocada não é exclusividade de uma nação, mas sim um fenômeno global.
A crise dos refugiados no Mediterrâneo patrocina vítimas todos os dias. A imprensa se acostumou a contabilizar números: dezenas, centenas, milhares de mortos. Entre as dezenas, centenas e milhares há histórias interrompidas. A matemática é cruel quando o assunto trata da vida de pessoas. A comunidade internacional, a passos lentos, move-se para dar abrigo aos migrantes. E o motivo da lentidão é simples. A Europa também passa por grave crise.
Li, recentemente, que o poderoso Estados Unidos passa por uma das maiores entressafras econômicas de sua história. ¼ dos jovens que deixam o ensino superior não conseguem emprego. O que dizer então daqueles que sequer tiveram oportunidade de frequentar a universidade. Em paralelo, cada indivíduo tem necessidades básicas. É preciso se alimentar, morar, viver! É necessário colocar os filhos na escola e prover-lhes uma boa educação. Tais essencialidades são indispensáveis.
Mas o mundo está em crise. Há problemas demais e soluções de menos. No Brasil, setores da sociedade torcem que a saída de Dilma Rousseff do poder revigore os investimentos no país, de modo que os empregos retornem. Até lá, os que não conseguirem se sustentar vão viver de quê? Da criminalidade, talvez. Os índices nunca foram tão altos. Do outro lado do Atlântico, em Portugal, vi gente idosa pedindo esmola na sinaleira. Colhi depoimentos de cidadãos oferecendo trabalho não em troca de dinheiro, mas em troca de comida.
Em suma, a crise é global. Como cuidar de tantas pessoas se a humanidade ainda não encontrou uma forma eficaz de realizar o essencial: viver em conjunto? Pequenas atitudes fazem a diferença, mas não suplantam a ineficiência de gestores públicos e de grandes corporações que, para manter os lucros altos, não hesitam em realizar inúmeros cortes. Pensar de um modo mais coletivo, esse é o desafio. Não há quem consiga proteger nossa espécie de nós mesmos.
Por: Gabriel Bocorny Guidotti
Jornalista e escritor
Porto Alegre – RS (Brasil)
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